segunda-feira, setembro 27, 2004

Desenterrando uns contos...

Ano passado eu estava escrevendo um livro de contos... Como eu ando em uma crise de improdutividade literária, resolvo postar esses escritos antigos. O livro se chama "Jovens" e é formado por 7 micro-contos.

------------------

I - Mariana (estrela)

Ventava uma brisa fina que, pouco a pouco, derrubava o sol pra além dos morros. Lento, a passos largos, um garoto descia a rua. Vinha sereno, e parava vez em quando, o olhar fixo em alguma coisa que não se podia ver. Contava uns cinco segundos e ele tomava rumo, sempre com aquele sei-que-lá no rosto - como se estivesse sempre prestes a tirar fotografia - num sorriso que não se apagava.

O sol e o menino continuavam seus caminhos. Eram bem parecidos, os dois brilhavam. O brilho do sol era vermelho de agonia, o do jovem, de alegria. Ele trazia em si a marca dos contentes, auqela coisa que se sente de longe. Não era pra menos...

Ainda trazia nos lábios o gosto da vitória. O gosto literal da vitória: Mariana. Ainda não caíra em si, estava deslumbrado. Caraca, a Mariana! Era como marcar um golaço, com direito a drible e vão de perna. Mas ele não o trazia apenas na boca - banhara-se de Mariana. Sua cabeça saiu do ar, só se via aquela imagem única, estática, como que gravada no fundo de sua retinha: a garota de dezesseis anos, de belas formas e olhos ligeiros, de curvas suaves e sorriso ingênuo - conjugando as graças de menina com os fogos de mulher, apesar da tenra idade(É nessa idade que são mais fatais).

O garoto andava no modo automático. Suas pernas continuavam a desenhar com preguiça o caminho de casa, enquanto o frenético palpitar em seu peito o levava a muito mais longe, a muitos lugares distantes, com Mariana. Ele tinha prazer a cada passo, caminhava sem pressa - antes desfilava. Sim, desfilava como vitorioso, soldado fatigado ostentando sua medalha em troca das pernas, e ainda assim sorrindo. Sua vontade era gritar a todo canto da cidade: "Caralho, fiquei com a Mariana!"

Não diria que sua alegria era a do caçador, presa abatida, como era de se supor. Mariana não era como as outras, e nela já pensava há quatro meses. Quatro meses e doze foras! Ecoava como um desafio, cada não o atiçava.

O sol já fazia a curva e ele ainda andava. Morava longe, mas ainda sentia Mariana perto, perto, perto... A noite já tinha caído toda antes de chegar em casa. Pelo caminho, notou, sempre à sua frente, enquano o sol se ia, brilhava mais a branquidão de uma estrela que nunca tinha reparado. Parou, e num segundo ficou íntimo daquele pontinho distante e brilhante, a que chamou "mariana do céu". E por ela também se apaixonou.

Chegando em casa, correu ao telefone. Tinha de contar pra ela, ela tinha de ver seu reflexo lá em cima. Respirou fundo e discou.

- A Mariana não está, saiu...

Murcho de seu entusiasmo, sem poder falar com a Mariana da terra, foi consolar-se com a do céu, na varanda de seu quarto. Ele não sabia, mas naquele exato momento a sua menina também estava a olhar a mesma estrela, que um dedo estranho apontava e mostrava. E, assim que ela sorriu aquele sorriso ingênuo, a mão daquele dedo descia por suas costas, e o dono daquela mão apertava Mariana bem perto de si, e provava, lentamente, aqueles mesmos lábios.

----------

sexta-feira, setembro 24, 2004

ISMÁLIA (Alphonsus de Guimaraens)



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se a torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.




No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se ao cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

terça-feira, setembro 21, 2004



Um raio rasga a aurora.

Assim começou minha semana...

sexta-feira, setembro 17, 2004

Metrô

Esta semana o Metrô de São Paulo completa 30 anos... E, em homenagem a isso e sem nada melhor para colocar no blog, lembrei que eu já fiz um poema sobre ele:

O MINEIRO E OS MISTÉRIOS DA METRÓPOLE (Rafael Prince)

I - O Metrô

o metrô é um trem muito estranho
trotando em seu trilho na entranha da terra
o metrô me amedronta o metrô me entristece
monstro da Cidade Grande

eu que estava acostumado
com a brisa da Mantiqueira
sinto bater na cara o vento frio
o bafo seco suspiro de ferro que ecoa
nessas catacumbas

vem vindo vem vindo faminto faminto
vomitando tanta gente e tanta gente entrando
e num instante tosco
a multidão dissolve-se

a estação deserta
deserto decerto eu

o silêncio da vigília longe catraca
catraca um chiar distante
passos apressados
apressados passos
o trem que já vem já vem já vem já

desembarque pelo lado esquerdo
esquerdo
esquerdo...

quarta-feira, setembro 15, 2004

Futuro do Pretérito

O passado existe? Ou é apenas uma sombra, lembrança...? Tudo o que já existiu, tudo o que passou, será que de alguma forma ainda existe, no fundo de nossas almas? Ou será que pouco importa, o que foi nunca mais voltará...

Será que o que foi é melhor do que o que poderia ter sido? Ou será que é apenas suposição. Pode vir a ser? Ou estará sempre condenado à imaginação... eternamente o Futuro do Pretérto! Seria, poderia...

O passado deve ser motor para o presente. E a busca do futuro do pretérito é vã. Só há futuro no futuro do presente, e se o passado já não mais existe, é melhor que vivamos, ao menos, o presente.

Porque a maioria das pessoas vive o que viverá (ou melhor, justamente por isso, não viverá, mas viveria) Outros vivem o que viveram - idealizando todo o passado e fazendo de seu conto de fadas a realidade.

Mas a realidade, só a encontramos no presente.

Raros os que vivem agora, por agora e para o instante que vive.

Porque não existe passado, e nem futuro.
Só um eterno presente.

quarta-feira, setembro 08, 2004

A Grandeza Inalcançável

Imagine-se numa estrada tão longa que não se vê o fim. E tente imaginar a agonia de tentar chegar à linha do horizonte, que, a cada passo, fica mais distante.

Assim é a nossa vida. Vivemos sempre em função de um horizonte distante, com os olhos à frente, e sem perceber por onde vamos andando. Em busca da Grandeza Inalcançável...

Acho que a música do post anterior ilustra bem isso. "Um sol acima do sol" é o que temos buscado sempre. Eu admito, sou um perfeccionista irremediável. Na busca de sempre fazer o melhor do melhor, acabo por não fazer nada.

E esse nada me enche daquele vazio (do qual falei uns posts atrás).

terça-feira, setembro 07, 2004

Acima do Sol


Acima do Sol
(Skank - Composição: Samuel Rosa/ Nando Reis)

Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer.
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira,
Como você não quis.

Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu você
E você cego nem nota.

Quando tudo ainda é nada,
Quando o dia é madrugada,
Você gastou sua cota.

Eu não posso te ajudar,
Nesse caminho não há outro
Que por você faça.

Eu queria insistir,
Mas o caminho só existe
Quando você passa.

Quando muito ainda é pouco,
Você quer infantil e louco,
Um sol acima do sol.

Mas quando sempre é sempre nunca,
Quando ao lado ainda é muito mais longe
Que qualquer lugar,

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira,
Como você não quis fazer.
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis.

Se a sorte lhe sorriu,
Porque não sorrir de volta?
Você nunca olha a sua volta.

Não quero estar sendo mal,
Moralista ou banal,
Aqui está o que me afligia.

Que pena, ela já vai
Achar o cara que lhe queira,
Como você não quis fazer.
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira,
Como você não quis.

Euforia e Vazio

É engraçado, quando eu estou muito ansioso, preocupado ou mesmo triste, eu acabo ficando eufórico. Não consigo parar quieto, tenho sempre de fazer alguma coisa. Sei que se eu não fizer, vou pensar nos meus problemas, então tenho que ocupar minha mente. Acho que é por isso que tive um fim de semana tão... boêmio. Hoje à tarde é que "caiu minha ficha", quando cheguei em casa, sozinho, e, sem mais o que fazer, me deparei comigo mesmo.

Carpe Diem

Finalmente, alguns dias de silêncio. Para quem está acostumado a morar na Av. 9 de Julho e estudar no Lgo. São Francisco, passar 3 dias aqui em São Lourenço parece uma ótima oportunidade para descansar...

Mas isso é o que eu menos tenho feito neste fim de semana.

Das últimas 48 horas, dormi apenas 6 horas! Saí todas as noites, aproveitei cada momento. Foi bom.

Amanhã, a esta hora, estarei já no ônibus rumo a Sampa. E tudo volta à rotina normal...

Enquanto isso, ainda tenho um dia todo para aproveitar!

quinta-feira, setembro 02, 2004

"POETA DAT ROSAM PUELLÆ"

Hoje tive minha primeira aula de Latim! Aprendendo frases básicas e bobas como a do título, quase como uma crinça...rsrs (O poeta dá a rosa para a menina) rsrsr Realmente tem que ser meio doido para se matricular numa matéria optativa como essa. Mas eu estou gostando bastante.

Outra novidade é que hoje há menos um desempregado no Brasil.
EU CONSEGUI O MEU PRIMEIRO EMPREGO!!!
Vou fazer estágio na biblioteca aqui da Faculdade (quer emprego melhor?? 4 horas por dia, cercado de livros - sem ter como fugir - e ainda recebendo no final do mês?!)

quarta-feira, setembro 01, 2004

Amizades

A amizade é um valor em crise na sociedade de hoje. Afinal, estimula-se muito mais o indivudualismo e a concorrência do que a cooperação e o companheirismo. Em São Paulo a gente percebe bem isso, as relações entre as pessoas são tão superficiais!... Talvez essa percepção esteja agravada pelo fato de que eu quase nào conheço o pessoal daqui, ainda não fiz nenhum amigo de verdade, mas mesmo que não seja bem assim, dá pra notar a diferença. O paulistano é solitário por natureza.

Mas, de qualquer forma, eu percebo que as pessoas trazem essa frustração e elas todas, no fundo, sempre estão à procura de verdadeiras amizades. Engraçado como a internet trabalha nesse aspecto. Muita gente não acredita que seja possível manter um relacionamento sincero e verdadeiro de amizade somente pela net. Dizem q é tudo virtual.

Bem, minha experiências me convencem do contrário. Posso citar 3 dos meus maiores amigos que eu conheci pela Internet ( e 2 dos quais nunca vi pessoalmente ): a Fernanda, de Tatuí; o Leandro, de São José; e a Marcela, de Brasília...
São pessoas tão parecidas comigo! Me considero uma pessoa de grande sorte de ter, por um feliz acaso, encontrado cada um deles.


À minha amiga distante
(Rafael Prince)

eu quis alguém que fosse assim como eu
alguém que fale comigo
daquilo tudo que o mundo esqueceu

e este alguém que eu sempre quis encontrar
foi por um feliz acaso
que a vida fez questão de me mostrar

amiga minha, rara e diferente
é bom saber que você
mesmo tão distante se faz presente

descobrindo a cada dia
que nós juntos somos fortes
combatendo os mesmos medos
cultivando os mesmos sonhos...