Av. Paulista, 7:00 a.m.
Despertam os pássaros urbanos do Trianon. Olhos ainda vermelhos, ternos passam ligeiros. Olhos no relógio, passos apressados, carros se enfileiram no sinal. O gigante MASP flutua sobre tudo aquilo, como se nada acontecesse. O metrô chega trazendo uma lufada de vento aos rostos ainda amassados, àqueles jovens de mochila nas costas, aos senhores de pasta na mão e ao operário de olhos atentos e tristes, segurando firme, de pé, à barra do trem que acelera.
Estação Paraíso, 7:09 a.m.
Muitos já estavam à porta, à espera. E as pernas autômatas já sabem o caminho das escadas rolantes que levam ao próximo trem - sentido Tucuruvi. Quando cheguei aqui, não sabia ainda os mistérios dessas galerias subterrânas. Ao ir para a escola, pegava Tucuruvi, ao voltar para casa, era Jabaquara. Só aprendi graças a uma excêntrica analogia: Tucuruvi me lembra o som de um trem: tucuruvi tucuruvi tucuruvi piuiii. O trem era o labor, o trabalho, o início do dia. Jabaquara já me lembrava o descanso, um mergulho em uma cachoeira. JabaQUAra QUA... Ah.... Sentia até o frescor da água.
Estação Sé, 7:18 a.m.
É como se a cobra gigante parasse para respirar. Espira e expele centenas de passageiros. Inspira e outros tantos entram...
Saindo da estação, encontro os mesmos ambulantes de sempre. "Óia a lupa, óia a lupa, pra lê a bíblia, pra lê jornal, pra lê revista, óia a lupa, óia a lupa!" "Ó o passe, passe, unitário, metrô sem fila, ó o passe" "Suflair 1 real, suflair".
E um dos homens terno-maleta que também saiam da estação compra um chocolate desses vendedores. Saído de algum lugar que não vi, logo lhe chega um moleque, em uma camiseta bem grande para o seu tamanho, que o fazia andar balançando as mangas compridas, bermuda surrada, rasgada, chinelo gasto no pé. O menino diz algo ao homem, que quebra o chocolate no meio e lhe dá metade.
O menino sorri em agradecimento sem tirar os olhos do chocolate. Talvez saídos do mesmo lugar que ele, chegam mais três garotos, irmãos, amigos, não sei. Por suas roupas e seus olhos, compartilhavam, de algum modo o mesmo sofrimento, e com o mesmo brilho olhavam para o doce nas mãos do companheiro. Mal chegam, sequer pedem nada, o menino divide em quatro seu pequeno pedaço de alegria - multiplicando assim em quatro seu sorriso (quero uma matemática que me explique!).
------------
Essa cena que vi semana passada me comoveu bastante... Imaginemos acontecendo o mesmo em um Shopping Center na zona nobre da cidade. O garotinho gordo, de camisa polo e tênis de marca, ganha da avó um chocolate. Seus dois irmãos chegam e lhe pedem um pedaço. Ele nega, apertando forte o chocolate com as mãos, que acabam por sujar-se. O irmão mais velho tenta avançar em suas mãos, enquanto o mais novo começa a chorar. E os outros dois quase acabam brigando, gritando e xingando um ao outro, até que a avó chega, dá um sermão coletivo e compra mais dois chocolates.
-------------
Engraçado... é que me lembro bem de quando era pequeno, e comprei um bombom com o dinheiro que minhah avó me havia dado... Minha mãe deu uma mordida em meu chocolate e eu chorei que ela estava "comendo o meu dinheiro". Como eu era estúpido... Como eu tinha uma cabeça fechada, imatura, era cego como o garotinho gordo.
-------------
Semana passada, quando vi aquela primeira cena, me lembrei disso que me aconteceu anos atrás, quando eu tinha, mais ou menos, a idade daqueles garotos. Pra alívio de consciência, comprei outro Sufflair e dei aos meninos. Eles podem achar que eu fiz uma grande coisa por eles, mas o que eles fizeram por mim foi muito, muito maior.