segunda-feira, novembro 22, 2004

o que poderia ter sido...

Hoje me deparei com um dos meus poemas prediletos do Fernando Pessoa... Dá para refletir bastante sobre isso, sobre tudo o que podia ter sido e não foi... Sobre as nossas eternas falhas, nossas frustações e nossa vã mania de sonhar.

Pecado Original (Álvaro de Campos)

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

quinta-feira, novembro 18, 2004

Kafka e mudança

É... está difícil conseguir um tempo para escrever aqui... Esta semana estou correndo para fazer o trabalho de Teoria do Estado sobre o livro "O Processo", de Kafka... Uma vez a mãe de uma amiga minha, que é professora e fazia pós-graduação nesta área de literatura, me contou que teve de ler alguns slivros do Kafka e quase pirou! Não é pra menos, afinal, se eu sou louco, aquele cara é completamente insano. Difícil entender a obra por si só, relacioná-la com o Direito e o Estado então é mais difícil ainda... Mas levo tudo bem tranquilo, não adianta se estressar. Sei que no fim dá certo.

Ontem mudei definitivamente para a Casa do Estudante... Vou deixar o convívio de Sir Gabriel Tindó! :-(
Sentirei falta de seus ataques de riso e de seus modos de lord... srsr

sexta-feira, novembro 12, 2004

Chá, poesia e muito barro!

Não, eu não abandonei meu blog :-) Com quase uma semana de atraso Vida corrida: está ocorrendo aqui na Faculdade a Semana de Direito Internacional, ou seja, além das aulas de manhã e do trabalho de noite, agora tenho palestras à tarde. Foi-se o meu tempo para a net! Mas sempre dá-se um jeito, não?

Fim-de-semana passado eu fui para as Dionisíadas, o encontro anual da Academia de Letras da faculdade, em uma Chácara aqui perto da Dutra. Foi muito louco, grandes divagações, algumas filosóficas e outras nem tanto rsrs Tivemos os deliciosos e exóticos banquetes preparados por Dan Rolim, nosso mestre-de-chá, que nos agraciou com clássicos da culinária marroquina (frango com grão de bico, com um tempero sensacional, além do chá verde com óleo de hortelã), italiana (fritatta!) e inglesa (cookies e até sanduíche de pepino!). Além da tea party, do jantar, da ceia e do brunch, discutimos nossos poemas - ficaram mais de uma hora só inventando versões musicais para um poema meu! De MPB a sertanejo, passando por rock, reggae, hip hop e tudo mais... rsrsr

Mas a melhor parte das Dionisíadas foi, sem dúvida, quando, no sábado à noite, eu e mais dois caras fomos buscar umas meninas da Academia que não sabiam o caminho. Enfrentando a chuva, nós fomos (de carro). Porém, erramos o caminho, e na estrada de terra, fomos parar em algum fim-de-mundo, onde, para piorar tudo, atolamos. Descemos, tomamos chuva, caímos no barro, empurrávamos o carro e nada.... Depois de abandonar o carro, pé no chão e mochila nas costas, andamos mais de meia hora na chuva e no barro, e, enfim, acabou que as meninas é que tiveram de nos buscar! Foi muito engraçado... Não é todo dia que se tem uma aventura como essa... Muito bom pra sair da rotina paulistana.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Cena Paulistana

Av. Paulista, 7:00 a.m.

Despertam os pássaros urbanos do Trianon. Olhos ainda vermelhos, ternos passam ligeiros. Olhos no relógio, passos apressados, carros se enfileiram no sinal. O gigante MASP flutua sobre tudo aquilo, como se nada acontecesse. O metrô chega trazendo uma lufada de vento aos rostos ainda amassados, àqueles jovens de mochila nas costas, aos senhores de pasta na mão e ao operário de olhos atentos e tristes, segurando firme, de pé, à barra do trem que acelera.

Estação Paraíso, 7:09 a.m.

Muitos já estavam à porta, à espera. E as pernas autômatas já sabem o caminho das escadas rolantes que levam ao próximo trem - sentido Tucuruvi. Quando cheguei aqui, não sabia ainda os mistérios dessas galerias subterrânas. Ao ir para a escola, pegava Tucuruvi, ao voltar para casa, era Jabaquara. Só aprendi graças a uma excêntrica analogia: Tucuruvi me lembra o som de um trem: tucuruvi tucuruvi tucuruvi piuiii. O trem era o labor, o trabalho, o início do dia. Jabaquara já me lembrava o descanso, um mergulho em uma cachoeira. JabaQUAra QUA... Ah.... Sentia até o frescor da água.

Estação Sé, 7:18 a.m.

É como se a cobra gigante parasse para respirar. Espira e expele centenas de passageiros. Inspira e outros tantos entram...
Saindo da estação, encontro os mesmos ambulantes de sempre. "Óia a lupa, óia a lupa, pra lê a bíblia, pra lê jornal, pra lê revista, óia a lupa, óia a lupa!" "Ó o passe, passe, unitário, metrô sem fila, ó o passe" "Suflair 1 real, suflair".
E um dos homens terno-maleta que também saiam da estação compra um chocolate desses vendedores. Saído de algum lugar que não vi, logo lhe chega um moleque, em uma camiseta bem grande para o seu tamanho, que o fazia andar balançando as mangas compridas, bermuda surrada, rasgada, chinelo gasto no pé. O menino diz algo ao homem, que quebra o chocolate no meio e lhe dá metade.
O menino sorri em agradecimento sem tirar os olhos do chocolate. Talvez saídos do mesmo lugar que ele, chegam mais três garotos, irmãos, amigos, não sei. Por suas roupas e seus olhos, compartilhavam, de algum modo o mesmo sofrimento, e com o mesmo brilho olhavam para o doce nas mãos do companheiro. Mal chegam, sequer pedem nada, o menino divide em quatro seu pequeno pedaço de alegria - multiplicando assim em quatro seu sorriso (quero uma matemática que me explique!).

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Essa cena que vi semana passada me comoveu bastante... Imaginemos acontecendo o mesmo em um Shopping Center na zona nobre da cidade. O garotinho gordo, de camisa polo e tênis de marca, ganha da avó um chocolate. Seus dois irmãos chegam e lhe pedem um pedaço. Ele nega, apertando forte o chocolate com as mãos, que acabam por sujar-se. O irmão mais velho tenta avançar em suas mãos, enquanto o mais novo começa a chorar. E os outros dois quase acabam brigando, gritando e xingando um ao outro, até que a avó chega, dá um sermão coletivo e compra mais dois chocolates.

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Engraçado... é que me lembro bem de quando era pequeno, e comprei um bombom com o dinheiro que minhah avó me havia dado... Minha mãe deu uma mordida em meu chocolate e eu chorei que ela estava "comendo o meu dinheiro". Como eu era estúpido... Como eu tinha uma cabeça fechada, imatura, era cego como o garotinho gordo.

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Semana passada, quando vi aquela primeira cena, me lembrei disso que me aconteceu anos atrás, quando eu tinha, mais ou menos, a idade daqueles garotos. Pra alívio de consciência, comprei outro Sufflair e dei aos meninos. Eles podem achar que eu fiz uma grande coisa por eles, mas o que eles fizeram por mim foi muito, muito maior.

segunda-feira, novembro 01, 2004

Sereníssima (Legião Urbana)

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente a quem desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que eu não quero
E 'cê vai logo ver o que acontece.

Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido mas existem possibilidades

Tínhamos a idéia, você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia

Já passou, já passou - quem sabe outro dia
Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi a lua dessa noite, do sereno da madrugada?

Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda calma do mundo