"Garçom, tire a conta da mesa
e põe um sorriso no rosto
Seria tanta avareza
cobrar no ONZE DE AGOSTO!"
Dia 11 de Agosto: dia do Advogado, dia do Garçom, dia do PINDURA!
Há mais de um século, existe na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco a tradição do "pindura". No dia XI de Agosto, aniversário da fundação da faculdade (que neste ano completou 177 anos), vão em grupos aos restaurantes de São Paulo (antigamente, só em restaurantes finos, hoje, com a decadência da tradição, tem gente dando pindura no Habbib's!), comem e bebem à vontade e, simplesmente, não pagam a conta! Por isso o "pindura"! Geralmente a brincadeira acaba na delegacia, ou os estudantes são processados, alguns, raramente, até presos ;-) Mas o pindura não é crime. De acordo com o Código Civil, é crime tomar refeição "sem possuir recursos para pagá-la". Mas nós possuímos recursos, simplesmente não pagamos! É só uma brincadeira, uma tradição.
Meu primeiro pindura foi inesquecível! Saímos da faculdade antes do meio-dia e fomos procurar um restaurante. Éramos 8 pessoas. Inventamos toda uma história, pintamos de guache a cara de um de nossos companheiros (que, por coincidência, usava cabelo raspado), e dizíamos que ele tinha acabado de passar no vestibular. Era o álibi perfeito para darmos um pindura - afinal, os restaurantes aqui ficam muito desconfiados, e um grupo de jovens é sempre suspeito no dia 11 de Agosto, e eles nem deixam entrar!!
Após passar por vários restaurantes, todos eles ou com ofícios de pindura (um papel que se deixa no restaurante pra saber que ele já tomou pindura), ou cartazes "Srs. estudantes de direito, este estabelecimento não aceita pindura"; "Não participamos das comemorações do dia da pindura"; "Estudantes de direito, apresentar-se à gerência"; "Vai dar pindura lá na ..." e coisas do tipo, procuramos e procuramos, e somente às duas da tarde, cansados e sem esperança é que chegamos ao Almanara (um restaurante chique, árabe. Só para ter uma idéia: um beirute - sanduíche de pão sírio - custa quase 20 reais), no Shopping Paulista.
Sentamos e logo o garçom nos trouxe o menu. Íamos já pedir a entrada, quando notamos um grupo de meninas sentadas na mesa ao lado. Elas olharam para nós e disseram: "É pindura?". Contendo o riso, fui conversar com elas, e descobri que eram estudantes da PUC (nota: ultimamente, outras faculdades de direito têm usurpado a tradição franciscana do pindura). Elas estavam quase terminando de almoçar, mas, usando de toda minha lábia e diplomacia, convenci as pucanas a enrolarem e só anunciarem o pindura junto conosco.
Quando terminamos de nos esbaldar em comida grátis, pedimos a conta, e cantamos aquela trovinha que coloquei no início: Garçom tire a conta da mesa/ e ponha um sorriso no rosto / seria muita avareza / cobrar no XI de Agosto!
Fui o orador do meu grupo, me levantei e comecei a dar discursos, a agradecer os garçons, o chef, o gerente, o proprietário, as pucanas que nos esperaram, o Imperador Pedro I que fundou os cursos jurídicos no Brasil e por aí vai... Foi cômico.
E, enquanto a gente fazia a nossa festa e todos de todas as mesas olhavam para nós estupefados, o pessoal do restaurante continuava impassível, o gerente e os garçons, como se nada tivesse acontecido. Era muito estranho... Pensamos que eles tinham chamado a polícia sem nos avisar.
Mas o gerente veio conversar com a gente, no início ele ficou assustado, no total da SanFran e da PUC eram 15 pessoas, mas falamos com o proprietário, e após nos enrolarem uma meia hora.... nos liberaram!!! De boa, sem chamar polícia nem nada!! E o gerente ainda disse: "Obrigado, desculpem qualquer coisa." whahahahahha foi muito surreal. Um pindura perfeito. Não pagamos nada da conta que deu, juntadno tudo, mais de 250 reais!
E claro, conforme a tradição, pagamos os 10% do garçom!